Cadeirante jogado de prédio em Boa Viagem teve corpo enterrado como indigente

Maykon Douglas de Jesus Almiron tinha 35 anos e muita vontade de viver. Natural do estado do Mato Grosso do Sul (MS), nasceu com uma má-formação congênita e não tinha as pernas e os braços. Mas isso não o impedia de ir atrás dos seus sonhos.

O jovem foi campeão dos Jogos Parapan-Americanos em Bocha Adaptada, no ano de 2013. Competiu representando a Associação Driblando as Diferenças (ADD/MS), em Buenos Aires, na Argentina. Também chegou a participar de outras competições nacionais e estaduais, onde sempre era destaque.

Maykon Douglas foi campeão Parapan-Americano em Bocha Adaptada, em 2013. Foto: Divulgação – ADD/MS

Ainda muito cedo, tomou gosto pelas vendas. Dividia seu tempo entre vender balas de goma e treinar, na cidade de Campo Grande. Anos depois, deixou sua terra natal e partiu em busca de novas oportunidades. Já adulto, ficou conhecido pelo esforço e por vender produtos na orla de Maceió, em Alagoas.

Maykon usava uma cadeira de rodas elétrica e que estava quebrada. Então, foi para a orla vender balas para juntar dinheiro. Lá, ele foi filmado por um influenciador que o ajudou financeiramente e acabou ficando muito conhecido.

Apesar da má-formação congênita, Maykon enfrentava a vida sempre feliz. Foto: Rede Social

O ex-paratleta e vendedor também costumava dar palestras e realizava lives em seu perfil no Instagram, que tem mais de 24 mil seguidores. No entanto, Maykon teve sua trajetória interrompida de maneira trágica, na sexta-feira que antecede o Sábado de Zé Pereira.

Há algum tempo, ele estava vivendo no Recife e comercializando balas na orla da Praia de Boa Viagem, um dos cartões postais da capital pernambucana. No dia 13 de fevereiro, enquanto vendia seus doces, Maykon foi abordado por um homem que estava no calçadão acompanhado de uma amiga.

Ele ficou conhecido na internet após ter sido filmado por influencer em Maceió. Foto: Reprodução/TV Pajuçara

Após escutar um pouco da história do vendedor, esse homem convidou Maykon para ir até seu apartamento, também em Boa Viagem. Maykon aceitou. No apartamento estavam esse homem, a amiga dele, uma funcionária da casa e Maykon.

Mas, em pouco tempo, o homem mudou de comportamento e teria passado a ficar agressivo. A polícia acredita que ele teve um surto psicótico. A amiga e a funcionária conseguiram fugir do imóvel. Maykon não conseguiu. Foi arremessado, em sua cadeira de rodas, da varanda do quarto andar do prédio.

Cadeira de rodas usada por Maykon após ele ter sido jogado. Foto: Reprodução WhatsApp

Maykon morreu na hora, Em seguida, o homem começou a jogar objetos pela varanda. Na sequência, ele também pulou. O homem ainda chegou a ser socorrido e morreu quando estava sendo levado para o Hospital da Restauração (HR), área central do Recife.

O caso chamou a atenção dos moradores da Rua Phaelante da Câmara, na altura do Segundo Jardim de Boa Viagem, naquela noite pré-carnavalesca. A Polícia Militar foi acionada, assim como o Instituto de Criminalística (IC), o Instituto de Medicina Legal (IML) e uma equipe da Polícia Civil.

Caso chamou a atenção dos moradores das proximidades. Foto: Reprodução WhatsApp

Em vídeo gravado em sua rede social, o delegado Rodrigo Bello, responsável pelo registro da ocorrência, relatou que havia ficado impressionado com a morte de Maykon e também do proprietário do apartamento onde tudo aconteceu. O corpo do homem foi liberado do IML pela família e sepultado.

Já Maykon Douglas de Jesus Almiron não teve o mesmo final. O corpo dele chegou ao IML sem identificação. Permaneceu lá até esta quinta-feira (26) quando foi enterrado como indigente. Maykon agora é apenas um número.

Corpo de Maykon deixou o IML nesta quinta e foi enterrado no Parque das Flores. Foto: Wagner Oliveira

Nos livros do IML, seu NIC (Número de Identificação do Cadáver) encerra sua passagem pela Terra. Nenhum parente esteve no necrotério à procura do corpo. E, assim como todos os outros registrados como indigentes, foi enterrado no Cemitério Parque das Flores, na Zona Oeste do Recife.  

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